Crianças no Swordplay, parte 1: Vale a pena? Vale, sim

Já faz algum tempo que vínhamos ponderando este tópico aqui no grupo. É adequado praticar o Swordplay com crianças? Vale a pena integrá-las ao grupo de Swordplay? Por que fazer isso? E por que não fazer isso? As vantagens são maiores do que as desvantagens?

Nesses quase dez anos de existência da Gladius Swordplay, já tivemos a oportunidade de  lidar com crianças em treinos e torneios promovidos pelo próprio grupo, e também em eventos externos como o Ribeirão Preto Anime Fest e as várias ocasiões em que trabalhamos em parceria com o Sesc-SP em cidades como Ribeirão Preto, Bauru, Araraquara, Taubaté, Catanduva, Santos, entre outras. E, com todas essas experiências, nós percebemos que o Swordplay é um esporte excelente também para os pequenos,  com benefícios que vão muito além daqueles que vêm com a prática de exercícios físicos.

Vejamos alguns deles, então:

 

1.) Respeito a regras, limites, valores e horários

Uma das questões mais debatidas atualmente é o fato de que as crianças (e até mesmo alguns adolescentes) não têm / não conhecem / não respeitam limites. Embora a responsabilidade de ensinar e estabelecer limites caiba aos pais, participar de alguns jogos de combate de Swordplay, mesmo aqueles que têm regras mais simples, pode ajudar a criança a desenvolver algumas noções, como:

  • O respeito pelas regras do jogo que está sendo disputado: as condições de vitória e derrota, coisas que podem ou não ser feitas, regras de combate e regras de batalha;
  • O respeito pelos limites estabelecidos pelo grupo: a quantidade de força aceitável para que um golpe seja válido, sem exagerar; as áreas do corpo do adversário que podem ser atingidas e que contam pontos;
  • Noções sobre valores como ética e honra, especialmente quando a criança recebe um golpe válido e precisa “morrer” (no jargão do swordplay: sair do jogo ou ir para o ponto de respawn) sem que um árbitro ou outro combatente tenha que vigiar seu comportamento;
  • Respeitar a disciplina e os horários delimitados pelo grupo para o início e fim do treino, as pausas, etc.

É claro que a prática do Swordplay, por si só, não vai incutir todas as noções acima na cabeça da criança de uma vez — até porque, repetindo: essa é uma atribuição que cabe aos pais. Mas as crianças muitas vezes aprendem pelo exemplo, e se os monitores e os guerreiros do grupo demonstrarem que seus valores são sólidos e que vale a pena segui-los, a criança vai acabar assimilando uma boa parte deles, ou mesmo todos, com o tempo.

E também existe a questão da troca: para ser aceita no grupo e treinar regularmente, a criança precisa compreender e acatar as regras que são seguidas por todo mundo. Essa parte não é muito diferente do que acontece em aulas de artes marciais: é dever dos senseis fazer com que os pequenos aprendam e respeitem as regras do dojô em que estão treinando, com valores que acabarão levando para o resto da vida.

 

2.) Pais e filhos combatendo juntos

Em 2015 a Gladius Swordplay estabeleceu o limite mínimo de 14 anos para que os combatentes possam participar sozinhos dos treinos e torneios organizados pelo grupo. Se o combatente ainda não chegou aos 14 e ainda assim quiser participar, existe uma possibilidade prevista no nosso regulamento:

O participante com menos de 14 anos poderá participar dos treinos da Gladius se estiver acompanhado por um maior responsável (irmão, pai, mãe, etc). O maior responsável deve, obrigatoriamente, participar do treino junto com o menor de 14 anos.

Estabelecemos essa regra por dois motivos:

  1. A criançada mais nova, especialmente quando está com uma espada de espuma na mão e se vê no meio de um campo de batalha (mesmo em jogos de combate menos competitivos como A Batalha dos Números ou o Three-Men-Forever), sempre acaba se empolgando demais e agindo com imprudência, batendo mais forte do que deveria ou correndo sem prestar atenção onde está pisando, por exemplo. Ter o pai ou a mãe por perto, batalhando no mesmo time, ajuda a controlar um pouco esse ímpeto.
  2. E o mais importante: é a oportunidade que pais, mães e filhos têm de praticar juntos uma atividade ao ar livre, reforçando os laços familiares e promovendo uma aproximação. E isso não vale somente para crianças; desde a fundação do grupo, em 2008, já tivemos com várias famílias em que pais, mães e filhos participam dos nossos treinos e demais eventos, independentemente dos filhos terem mais ou menos de quatorze anos.

 

3.) Aprender a trabalhar em equipe

Um tópico que é quase autoexplicativo. Por natureza, as crianças são individualistas e querem sempre ser os heróis da história (ou do combate); participar de um jogo de combate onde os combatentes são divididos em times, especialmente se houver funções específicas a desempenhar (como healers; veja os nossos artigos sobre healers em jogo, divididos em parte 1 e parte 2) ou onde seja necessário usar habilidades que não estão diretamente ligadas ao combate (como a capacidade de desviar dos adversários, fazer infiltrações e pegar a bandeira adversária no Caça-Bandeira) serve para dar à criança a noção de que ela faz parte de uma equipe, e que, talvez, a modalidade em disputa não seja simplesmente uma questão de “aniquilar todos os inimigos”.

 

4. Curtir as vitórias e aceitar as derrotas

Já viu uma criança fazendo birra porque perdeu uma disputa?

Pois é, nós já vimos. Não é legal.

O Swordplay, por ser uma atividade lúdica e esportiva, tem um potencial bem interessante para ensinar uma criança a lidar com vitórias e derrotas. Aprender a aceitar uma derrota (especialmente quando a derrota foi justa e aconteceu de acordo com as regras pré-estabelecidas) é um aspecto importante para a formação do caráter da pessoa; e aprender a curtir uma vitória sem tripudiar, xingar ou menosprezar os perdedores, também.

Jogos mais lúdicos, como o Gauntlet ou os já citados Batalha dos Números e Three-Men-Forever não têm um vencedor no sentido tradicional; eles podem ser usados para mostrar aos pequenos guerreiros que o jogo em si é mais divertido do que o seu resultado. E, no caso dos jogos mais competitivos, como a Batalha Campal, a Escolta ou a Conquista de Territórios, sempre há a possibilidade de começar uma nova partida, independente de qual exército ganhou ou perdeu a rodada anterior.

 

5. Os futuros guerreiros do seu grupo

Um tema muito recorrente nas conversas entre os guerreiros mais velhos (aquela turma que já tem ou está começando a ficar com os cabelos brancos e as barbas grisalhas… ou que já não tem mais cabelos!) é o seguinte:

Eu queria que isso existisse quando eu era criança.

Afinal, quem é que nunca pegou um cabo de vassoura ou pedaço de madeira para fingir que era a espada usada pelo herói de alguma obra de ficção, como He-Man, She-Ra, Luke Skywalker, D’Artagnan, Zorro ou Conan, o Bárbaro?

Resposta: qualquer pessoa que tenha nascido depois de 1990, cara. Esses heróis são da geração anterior 😛

Este é o tópico para quem pensa a longo prazo. Quanto tempo você gostaria que o seu grupo de Swordplay durasse? Dez anos? Vinte? Cinquenta? Então que tal começar a preservar o seu legado educando as novas gerações, que irão se tornar guerreiros completos daqui a alguns anos e perpetuar o trabalho?

 

6. Sair da frente da TV, desligar o computador, largar o celular

Essa é uma das justificativas geralmente citadas pelos pais com os quais conversamos no decorrer dos anos. Como o Swordplay traz a experiência de um combate simulado para o “mundo real” dos parques e praças da cidade, essa é a oportunidade de “desplugar” a cabeça da molecada e fazer com que se mexam um pouco, respirem ar puro e socializem com outras pessoas fisicamente, ao invés de virtualmente.

Além disso, um jogo de combate vai ensinar aos pequenos que certas coisas que eles veem na ficção não funcionam muito bem na vida real, como manejar uma espada que é maior do que o próprio guerreiro (#BleachFeelings, #FinalFantasyFeelings), aqueles golpes giratórios bacanas (que, no Swordplay, sempre deixam as costas do guerreiro abertas para um contra-ataque), e… correr com os braços esticados para trás (#NarutoFeelings).

Tem mais? Claro que tem! Daqui a alguns dias sai a Parte 2 deste artigo, com orientações sobre o que é legal ter em mente quando há crianças no um treino (ou quando o treino / evento envolve apenas crianças).

Até lá!

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